A figura da bruxa é um dos arquétipos mais poderosos e duradouros do cinema. O imaginário coletivo é marcado por dois extremos potentes: por um lado, a iconografia clássica e às vezes reconfortante do folclore e da fantasia; por outro, sua encarnação como símbolo do puro terror. O cinema explorou ambos os rostos com resultados inesquecíveis.
Nos últimos anos, especialmente, o gênero tem vivido um renascimento extraordinário, graças ao retorno do folk horror e a uma nova onda de cinema autoral. Nessas obras, a bruxa deixa de ser uma simples velha malvada e torna-se um arquétipo complexo, um símbolo de rebeldia contra as estruturas patriarcais, um veículo para explorar a paranoia social, o poder feminino e o horror psicológico.
Este guia é uma jornada por todo o espectro dessa figura. É um caminho que une os grandes clássicos que definiram o gênero às produções independentes mais subversivas. Dos ícones da cultura pop que definiram nossa infância às obras de “art-horror” que usam o folclore para uma investigação psicológica, aqui está uma seleção de filmes que incorporam perfeitamente a evolução desse mito.
🆕 O Covil Moderno: Melhores Filmes Recentes de Bruxas
The Witches of Mount Sciliar

Docuficção, de Andrea Dalfino, 2022, Itália.
As Bruxas do Scillar é um documentário que mergulha profundamente nos julgamentos que ocorreram no Alto Adige, em Castel Presule e áreas circundantes no início do século XVI, após os quais mais de 10 pessoas foram condenadas à fogueira sob acusações de bruxaria, tornando-se as reais precursoras da infame Caça às Bruxas. Partindo da análise do contexto histórico e entrelaçando lendas locais com eventos reais, além de analisar os locais dos acontecimentos com a ajuda e orientação de especialistas, este filme oferece uma nova perspectiva histórica sobre o que aconteceu, culminando com a exposição do que resta das bruxas no Tirol do Sul hoje e como os crimes da inquisição são julgados em retrospecto atualmente.
O Alto Adige é uma terra cheia de mistério, onde história e lenda se entrelaçam, com seus cenários mágicos e fascinantes que impulsionam a mente e a imaginação a vagar, investigar, descobrir. Aqui está o Sciliar, um maciço montanhoso sugestivo localizado no parque natural de mesmo nome, contra o pano de fundo das Dolomitas, e nenhuma outra montanha é tão cheia de mitos e lendas quanto esta, sobre a qual se diz que vivem criaturas encantadas e espíritos de toda sorte, e na Idade Média era considerada um local de encontro para bruxas e demônios. Aqui, durante o tempo da Inquisição, 10 mulheres acusadas de bruxaria foram julgadas e mortas. O diretor Andrea Dalfino realizou o documentário As Bruxas do Sciliar, enriquecendo o filme com cenas ficcionais que reconstroem os intricados eventos do julgamento de Fiè.
IDIOMA: Italiano
LEGENDAS: Inglês, Espanhol, Francês, Alemão, Português
The Last Thing Mary Saw (2023)
Nova York, 1843. Em uma comunidade agrícola calvinista rigorosa, a jovem Mary é interrogada vendada com um pano ensanguentado. Seu crime é um amor proibido pela empregada Eleanor. A repressão religiosa da família e a punição brutal que as duas garotas suportam despertam uma força sombria na casa. A avó, uma matriarca severa e misteriosa, parece guardar segredos que vão além da simples fé.
Um horror folk de câmara lento e opressivo, iluminado quase exclusivamente por velas (lembrando The Witch e Barry Lyndon). Rory Culkin é inquietante como um intruso, mas o coração do filme é o silêncio que precede a tempestade sobrenatural. É um filme sobre repressão que gera monstros, elegante e assustador em sua quietude.
Omen (Augure) (2023)
Koffi, um homem congolês vivendo na Bélgica, retorna a Kinshasa com sua noiva branca grávida para visitar sua família após anos de ausência. Mas o retorno não é feliz: sua família e comunidade o consideram um feiticeiro (“Zabolo”) devido a uma marca de nascença no rosto e antigas superstições. O filme entrelaça sua história com a de outros três personagens acusados de bruxaria em uma Kinshasa alucinada e mágica.
Vencedor do prêmio “New Voice” em Cannes, o artista Baloji dirige uma obra visualmente psicodélica que mistura realismo mágico, afro-futurismo e crítica social. A bruxaria aqui não é sobre caldeirões, mas o rótulo que a sociedade impõe aos que são diferentes. Figurinos incríveis, cores saturadas e direção visionária para um filme que explora o misticismo africano moderno.
1st Bite

Terror, romântico, de Hunt Hoe, Canadá, 2006.
Gus é um homem encantador que trabalha como cozinheiro em um restaurante oriental em Montreal. Seu chefe o envia para uma ilha remota na Tailândia para conhecer um mestre da culinária Zen e melhorar a qualidade de seus pratos. Lá, ele conhece uma mulher misteriosa chamada Lake, que vive em uma caverna e o informa que o mestre da culinária Zen está morto. Gus vai morar na caverna e começa um romance com Lake. Mas o equilíbrio psicológico do cozinheiro piora rapidamente, incluindo alucinações, álcool e mal-estar. Lake não quer que Gus vá embora, mas Gus sente que precisa escapar da ilha e que sua vida está em perigo.
First Bite é um filme independente canadense muito original que cruza diferentes gêneros cinematográficos em sua narrativa, passando repentinamente do romantismo ao suspense e ao terror. Direção e edição nunca banais, apoiadas por tomadas com lentes grande-angulares que aumentam a tensão e por um elenco de atores em excelente forma que oferecem interpretações muito intensas e realistas. Entre misticismo, magia negra, histórias de amor e ilhas tropicais, First Bite é a odisseia de um homem que permanece prisioneiro em uma armadilha da qual não pode mais escapar, perdido entre paixões e comidas exóticas. Uma fuga de energias malignas em busca de significados espirituais ambientada entre a natureza selvagem e a metrópole.
IDIOMA: Inglês
LEGENDAS: Espanhol, Francês, Alemão, Português
Cuckoo (2024)
Gretchen, de dezessete anos, muda-se com sua família para um resort alpino alemão administrado pelo enigmático Sr. König. Logo ela descobre que as florestas ao redor do hotel escondem um segredo ligado a uma espécie de “mulheres-cuco”: criaturas semelhantes a bruxas que usam gritos sônicos para desorientar as vítimas e implantar seus ovos em famílias humanas desavisadas.
Tilman Singer reinventa a figura da “mulher da floresta” com uma abordagem sci-fi e biológica. Não é a clássica bruxa mágica, mas um predador evolutivo que manipula o tempo e a percepção. É um horror weird estiloso e estridente, com uma icônica Hunter Schafer lutando contra uma mitologia completamente nova e perturbadora.
The Devil’s Bath (2024)
Áustria, 1750. Em uma aldeia montanhosa isolada e profundamente religiosa, uma mulher chamada Agnes se casa, mas logo cai em uma profunda depressão (“o banho do diabo”). Incapaz de cometer suicídio porque seria um pecado mortal que a levaria ao Inferno, Agnes busca uma brecha teológica aterrorizante: cometer um crime capital (matar uma criança) para ser executada e, através da confissão final, obter o perdão de Deus.
Os diretores de Goodnight Mommy (Veronika Franz e Severin Fiala) criam uma obra-prima do Folk Horror histórico baseada em registros reais de julgamento. Não há bruxas em vassouras, mas o puro horror do fanatismo religioso e da condição feminina rotulada como possessão ou bruxaria. É um filme devastador, visualmente pictórico e psicologicamente insuportável. O verdadeiro rosto da “caça às bruxas” histórica.
Haxan

Documentário, de Benjamin Christensen, Suécia, 1922.
Profanação de túmulos, tortura, freiras possuídas por demônios e sabá de bruxas: Haxan, Bruxaria Através dos Séculos é um filme incrivelmente original e não convencional que se tornou lendário ao longo do tempo. Entre documentário e ficção dramática, o filme nos guia pela hipótese científica de que as bruxas da Idade Média sofriam dos mesmos males que os doentes mentais da era moderna. Um horror gótico assustador e ao mesmo tempo humorístico, com a criação de sequências documentais e de não-ficção que antecipam as inovações da Nouvelle Vague. Algo absolutamente único na história do cinema.
Para refletir
Em sânscrito, Diabo e Divino vêm da mesma raiz, dev. A loucura é o lado sombrio do homem e é tão natural quanto o lado luminoso. Quando você é capaz de dizer a um louco que ele não só é louco, mas que você também é, uma ponte é imediatamente criada, e é possível ajudá-lo. A natureza da vida não é nem lógica nem racional. A vida é ilógica, selvagem e contraditória.
IDIOMA: Inglês, Sueco
LEGENDAS: Espanhol, Francês, Alemão, Português
A vision curated by a filmmaker, not an algorithm
In this video I explain our vision
🌑 Que tom de Terror você está procurando?
O cinema do medo é um universo vasto e complexo que vai muito além de um único monstro ou uma única maldição. De atmosferas psicológicas refinadas a violência visceral, cada subgênero toca diferentes acordes do inconsciente. Para ajudar você a encontrar o filme perfeito para sua noite sem sono, selecionamos nossos guias essenciais explorando cada face do pesadelo cinematográfico.
Horror Cult & O Oculto
A figura da bruxa é central na história do cinema “amaldiçoado”. De Suspiria a The Blair Witch Project, há filmes que redefiniram como imaginamos a magia negra, transformando velhas lendas em ícones pop. Se você quer descobrir os marcos que misturaram esoterismo com medo, esta é a lista essencial.
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Cinema Gótico
Bruxas não vivem apenas nas florestas, mas também em castelos em ruínas e criptas enevoadas. O gênero gótico é o habitat natural da bruxaria romântica e decadente, onde maldições estão frequentemente ligadas ao sangue, ao amor eterno e à morte. Aqui você encontrará filmes onde a atmosfera importa mais do que o susto.
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Folk Horror & Ritos Pagãos
A bruxa é a sacerdotisa da natureza. O Folk Horror explora o lado antigo e rural da magia: cultos isolados, sacrifícios em campos de milho e divindades esquecidas. Se você é fascinado pelo horror nascido da terra e das tradições camponesas (como em The Wicker Man ou Midsommar), este é o seu gênero.
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Filmes de Terror Italianos
A Itália possui uma tradição esotérica muito forte. Nossos mestres, de Mario Bava a Dario Argento, pintaram a bruxaria com cores vibrantes e uma crueldade barroca única no mundo. As “Três Mães” e as antigas feiticeiras provincianas são as protagonistas de um cinema visceral que estabeleceu o padrão.
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Os Melhores Filmes de Bruxas de Todos os Tempos
Por séculos, a figura da bruxa encarnou os medos mais profundos da sociedade: o poder feminino descontrolado, o vínculo com a natureza e as trevas. Antes do CGI, o cinema narrava a bruxaria através de atmosferas góticas, reconstruções históricas de julgamentos e folclore inquietante. Nesta seção, viajamos às raízes do mito: desde os clássicos mudos escandinavos até o psicodélico Technicolor dos anos 70, aqui estão as obras que definiram para sempre a iconografia da magia negra.
Halloween

Terror, de John Carpenter, Estados Unidos, 1978.
Um filme independente filmado com um orçamento muito pequeno, arrecadou mais de 80 milhões de dólares em todo o mundo na época. É o filme slasher de maior sucesso e um dos 5 filmes mais lucrativos da história do cinema, que se tornou um cult com inúmeras sequências e reboots. Carpenter descreve a província americana remota de maneira extraordinária e aumenta a tensão por mais de uma hora, sem que nada aconteça, com uma direção linear e eficaz, e com música hipnótica criada por ele mesmo. Um diretor brilhante que consegue, com alguns elementos simples e uma pequena produção, criar um horror destinado a permanecer na imaginação cinematográfica mundial.
The Undead (1957)
Uma mulher é colocada em transe psíquico e enviada de volta no tempo diretamente para o corpo de uma de suas ancestrais medievais, que está condenada a morrer como bruxa. Ela foge de uma bruxa real chamada Livia (Allison Hayes), que trabalha com o diabo. Há também outra bruxa, uma desonesta que ajuda Livia, e um dos psíquicos que viaja no tempo com ela. Produzido e dirigido por Roger Corman, este é um incomum e divertido filme B que mistura horror: violência, reencarnação, viagem no tempo, comédia e diversão.
Há cenas engraçadas com a bruxa e o duende se transformando em animais, especialmente um par de morcegos de aparência grotesca. Até o agente funerário é divertido com suas rimas espirituosas e argumentos, como quando chama o cemitério de sua “fazenda de carne”. O diabo é ótimo, com sua risada constante e um enorme tridente. Aos sábados, ele convoca um trio de garotas mortas para subir ao túmulo e dançar. O filme é particularmente notável pela aparição da atriz Hayes em seu vestido muito justo.
Hayes foi uma estrela de filmes B dos anos 1950, principalmente devido à sua aparição em Attack of the 50-Foot Woman. O filme foi rodado em seis dias com um orçamento de $70.000, em um antigo supermercado. Também é notável por apresentar uma antagonista feminina e uma protagonista feminina, com o personagem masculino principal desempenhando um papel fraco e vulnerável. O filme tem um culto entre fãs de filmes de terror, drive-ins e produções independentes de baixo orçamento. Se você gosta deste gênero, precisa conferir.
Black Sunday (1960)
Em 1630, na Moldávia, as bruxas Asa Vajda (Barbara Steele) e Javuto são condenadas à morte pelo irmão de Asa e pela Inquisição. Elas são torturadas, marcadas com a letra “S” de Satanás e têm uma máscara de ferro pregada em seus rostos. Duzentos anos depois, retornam do reino dos mortos quando um grupo de profissionais médicos descobre o local de sepultamento e acidentalmente danifica a cruz e o painel de vidro. Um dos médicos se corta no vidro, e seu sangue revive a bruxa. Ela convoca Javuto com o plano de drenar o sangue de sua parente, a Princesa Katia (também interpretada por Steele), para obter a vida eterna.
Este é um horror gótico criado na Itália, considerado uma das obras de arte mais destacadas do gênero. Utiliza uma mistura de atmosfera, som, gore e seus ambientes do filme gótico. Remete aos excelentes filmes de horror em preto e branco dos anos 1930, como Dracula, e aos filmes de horror da Hammer que o inspiraram. É notável por ser o lançamento na direção de Mario Bava e da atriz Barbara Steele, ambos principalmente associados ao estilo de horror. Bava dirigiria posteriormente filmes notáveis como Black Sabbath, The Body and the Whip, Blood and Black Lace, Kill Baby, Kill, A Bay of Blood, Lisa and the Devil.
Steele tornou-se reconhecida por seu charme marcante, olhos grandes e cabelos escuros, aparecendo em inúmeros filmes de horror como Pit and the Pendulum, The Horrible Dr. Hichcock, The Ghost, Castle of Blood, An Angel for Satan e The Curse of the Crimson Altar. Steele tem sucesso em sua interpretação de personalidades conflitantes, transitando sem esforço da princesa inocente para a bruxa malvada.
Há muitas cenas notáveis, incluindo a abertura onde a bruxa é torturada e morta. Há excelentes closes da máscara de ferro e dos pregos dentro dela, enquanto corta para cenas da bruxa conforme a máscara se aproxima dela. Depois, há uma cena em que pregam a máscara em seu rosto, e o sangue escorre. Também há uma série de cenas impressionantes onde a máscara é removida, e escorpiões emergem de seus olhos ocos, seguidas por uma série de cenas mostrando sua regeneração.
The Terror (1963)
O tenente Duvalier (Jack Nicholson), um soldado francês, perde contato com sua unidade e é forçado a vagar sozinho perto do Mar Báltico. Enquanto procura seu regimento, ele avista Helene (Sandra Knight), uma beleza misteriosa, caminhando sozinha. Fascinado, Duvalier começa a segui-la, mas ela desaparece. Mais tarde, ele a alcança e a segue até um castelo, onde conhece o bizarro Barão Von Leppe (Boris Karloff), encontra sinais de bruxaria e descobre a chocante verdade sobre Helene.
Filme de terror de Roger Corman de 1963, com o primeiro papel principal de Jack Nicholson. Sob a superfície de um filme de gênero, encontra-se uma interessante exploração de temas ocultos relacionados à bruxaria, como a capacidade de controlar os corpos físicos das pessoas através do corpo etérico e outros corpos invisíveis. O fenômeno do mesmerismo também é mencionado, um termo derivado do nome de seu inventor, o médico alemão Franz Anton Mesmer, que viveu no século XVIII.
Kwaidan (1964)
“Kwaidan” é um filme japonês de 1964 magistralmente dirigido por Masaki Kobayashi, celebrado por sua contribuição distinta e impressionante ao cinema. O filme é uma adaptação de quatro contos escritos por Lafcadio Hearn, um autor renomado conhecido por suas intrigantes histórias de fantasmas japonesas. Cada segmento desta antologia mergulha no reino assustador e sobrenatural, mostrando a direção habilidosa de Kobayashi e sua profunda compreensão das narrativas assombrosas de Hearn. Através de uma cinematografia vívida e um design de som inquietante, “Kwaidan” se destaca como um testemunho das cativantes tradições narrativas do Japão, abraçando os elementos misteriosos e de outro mundo que caracterizam os contos de Hearn. O filme não apenas entretém, mas também imerge os espectadores no rico tecido do folclore japonês, oferecendo uma jornada visual e emocional pelo sobrenatural.
O filme consiste em quatro episódios únicos, cada um se desenrolando em um tempo e local distintos, mas todos unidos por um tema central: narrativas de fantasmas e bruxaria. O primeiro episódio transporta os espectadores para uma vila medieval assombrada onde o espírito de um residente há muito falecido retorna com uma mensagem inquietante. O segundo episódio viaja para uma mansão vitoriana envolta em névoa, habitada pelo fantasma inquieto de uma governanta desolada. No terceiro episódio, o público é atraído para as profundezas misteriosas de uma floresta densa em tempos antigos, onde bruxas se reúnem sob a luz do luar para cerimônias secretas. O episódio final se passa em uma paisagem urbana moderna, onde um encontro inesperado com uma figura espectral perturba a rotina de um jovem artista. Cada segmento se desenrola de maneira poeticamente rica e visualmente cativante, imergindo os espectadores em um reino fantástico e onírico.
O filme recebeu aclamação generalizada devido à sua abordagem única e inovadora ao gênero de ficção de terror. “Kwaidan” ascendeu ao status de ícone dentro do cinema japonês, alcançando renome internacional e conquistando inúmeros prêmios e honrarias em diversos festivais de cinema prestigiados. Estimado por sua excelência artística, é uma obra notável que cativa tanto os aficionados por cinema autoral quanto aqueles que encontram um fascínio especial no mundo místico das histórias de fantasmas japonesas e do folclore. Seu estilo distintivo e profundidade narrativa contribuem para seu legado duradouro, apelando profundamente a públicos que buscam uma fusão de visão criativa e tradição cultural.
Viy (1967)
Um jovem seminarista ortodoxo, Khoma, se perde na estepe ucraniana e acaba no celeiro de uma velha bruxa que o monta voando pelo céu. Depois de espancá-la até a morte, ela se transforma em uma bela garota. Khoma é então convocado por um rico comerciante para vigiar o corpo da filha morta por três noites em uma velha igreja de madeira. Em Viy, o rapaz descobre que a garota morta é a bruxa, que desperta todas as noites para atacá-lo, convocando demônios, espíritos e finalmente o Viy, o rei dos gnomos com olhos de pedra.
O primeiro e único filme de terror oficialmente produzido na União Soviética, esta é uma fábula sombria baseada na história de Gogol. É uma obra-prima dos efeitos especiais práticos e artesanais: caixões voadores, criaturas grotescas e cenários góticos que parecem saídos de um livro de histórias. A atmosfera fica suspensa entre o folclore camponês e o pesadelo surrealista. Um clássico essencial para os amantes das raízes da bruxaria eslava.
The Conqueror Worm (1968)
Em 1645, a Inglaterra encontra-se imersa em uma tumultuada guerra civil, um período caracterizado por profundas convulsões sociais e políticas que reverberam pelo tecido da sociedade. Em meio a esse caos, as cidades locais são mergulhadas em conflitos e incertezas. À medida que a ordem social estabelecida desmorona, homens oportunistas emergem, ansiosos para capitalizar sobre a turbulência predominante. Esses indivíduos, movidos pela ambição e pelo desejo de controle, manipulam as superstições prevalentes em torno da bruxaria a seu favor. Ao explorar os medos e a credulidade da população, conseguem consolidar poder, agravando ainda mais o já volátil cenário social. Essa exploração dos temores relacionados à bruxaria não apenas desestabiliza as comunidades, mas também aprofunda as divisões, semeando suspeitas e desconfianças entre os habitantes, enquanto as estruturas tradicionais são continuamente testadas pela maré implacável da guerra e da mudança.
Entre esses indivíduos, destaca-se uma figura notória conhecida como o caçador de bruxas Matthew Hopkins, interpretado por Vincent Price. Hopkins viaja pelas pequenas aldeias espalhadas pelo campo, explorando as confissões de supostas bruxas para seus próprios propósitos nefastos. Sua exploração não conhece limites, pois manipula sua autoridade para obter ganhos ilícitos, envolvendo-se em atos sexuais coercitivos e acumulando riqueza por meio do engano. Em um ato particularmente hediondo, Hopkins persegue um pastor, submetendo-o a abusos antes de finalmente mandá-lo enforcar. Devastada por essa brutal injustiça, a sobrinha do pastor se vê envolvida com um jovem, seu pretendente, que é movido por um voto de vingança. Ele promete apaixonadamente que não descansará até caçar Matthew Hopkins e vingar o cruel destino que acometeu o pastor, tirando a vida do caçador de bruxas.
Price relatou que todo ator no set enfrentou desafios significativos devido ao diretor, Michael Reeves, que tinha dificuldades para se comunicar efetivamente com eles. Essa barreira de comunicação criou um ambiente tenso e complexo durante a produção. O título do filme passou por uma mudança para seu lançamento no mercado americano, tornando-se The Conqueror Worm. Essa alteração foi estrategicamente feita para alinhar com outros projetos de Price relacionados a Edgar Allen Poe, capitalizando assim a popularidade dessas obras. Por fim, o lançamento do filme na América teve um sucesso comercial moderado, arrecadando aproximadamente $1.500.000.
O Bebê de Rosemary (1968)
Rosemary Woodhouse e seu marido Guy, um ator em dificuldades, mudam-se para o Bramford, um antigo prédio de Nova York com uma reputação sinistra. Depois que Guy faz um pacto secreto com seus vizinhos, um casal excêntrico e idoso, sua carreira de repente decola, e Rosemary fica grávida sob circunstâncias violentas e oníricas. Em O Bebê de Rosemary, a gravidez se transforma em um tormento de dor física e paranoia: Rosemary fica convencida de que os vizinhos são um coven de bruxas que querem seu bebê para um rito satânico, mas ninguém acredita nela.
Roman Polanski dirige a obra-prima definitiva do ocultismo urbano. Não há castelos góticos, mas um apartamento moderno onde o mal se esconde por trás da banalidade da vida cotidiana. Mia Farrow oferece uma performance icônica de fragilidade e manipulação. O filme é uma metáfora agonizante para a perda da autonomia corporal e o patriarcado (o marido “vendendo” sua esposa por uma carreira), culminando em um final desesperador que mudou a história do horror.
O Homem de Palha (1973)
O Homem de Palha é um clássico filme britânico de 1973 habilmente dirigido por Robin Hardy e escrito pelo talentoso roteirista Anthony Shaffer. Este filme se destaca como uma representação exemplar de um filme cult e alcançou um status reverenciado entre os entusiastas do cinema ao longo das décadas.
O personagem central do filme é o Sargento de Polícia Neil Howie, interpretado pelo talentoso Edward Woodward. Ele é enviado para a isolada ilha escocesa de Summerisle para investigar o misterioso caso de uma jovem desaparecida, Rowan Morrison. Ao pisar na ilha, o Sargento Howie encontra uma sociedade excêntrica e insular, que opera sob a liderança carismática, porém enigmática, de Lord Summerisle, interpretado pelo ilustre Christopher Lee. Dentro desse cenário peculiar, Howie deve navegar pelos costumes e crenças incomuns da comunidade, desvendando o mistério que entrelaça suas tradições aparentemente arcaicas com o desaparecimento da jovem Rowan. À medida que aprofunda sua investigação, o estilo de vida estranho e os rituais da ilha revelam um desafio tanto profissional quanto pessoal, levando a revelações inesperadas e a um confronto com o modo de vida da ilha que testa suas próprias convicções e crenças.
À medida que Howie se aprofunda em suas investigações, ele se depara com uma crescente série de peculiaridades e tem inúmeros encontros perturbadores com os habitantes da ilha. Cada indivíduo que ele encontra parece estar profundamente e secretamente envolvido nas atividades de um culto pagão clandestino. A cada passo que dá, a atmosfera se torna cada vez mais sinistra. À medida que Howie se aproxima da verdade, começa a suspeitar que o desaparecimento da garota está intricadamente ligado a um ritual maligno das trevas. Esse ritual parece girar em torno da figura ominosa de um colossal homem de vime, sugerindo uma culminação horripilante de intenções ocultas e práticas ancestrais.
Belladonna da Tristeza (1973)
Na França medieval, a jovem e bela Jeanne é estuprada pelo senhor feudal local na noite de seu casamento. Ostracizada e desesperada, ela faz um pacto com um demônio em forma fálica que aparece em seus sonhos. Em Belladonna da Tristeza, o demônio lhe concede imenso poder sexual e mágico, transformando-a em uma poderosa bruxa que lidera uma revolta camponesa, até ser capturada e queimada na fogueira, tornando-se o símbolo da Revolução Francesa.
Produzido pela Mushi Production de Osamu Tezuka, este anime japonês é uma obra erótica e psicodélica esquecida por décadas. Animado com aquarelas estáticas e estilos que remetem a Klimt e à Art Nouveau, é um manifesto feminista radical e visualmente deslumbrante. Não é um desenho animado: é uma viagem ácida sobre violência sexual, bruxaria como emancipação e história.
Suspiria (1977)
Desde a sequência hipnótica de abertura, acompanhando a chegada de Suzy Bannion de táxi por uma floresta sob uma chuva torrencial, Suspiria imediatamente arrasta o espectador para um conto macabro ao estilo dos Irmãos Grimm, onde a lógica racional cede lugar à pura sugestão sensorial. O ataque combinado da trilha tribal e barroca do Goblin e da cinematografia fantasmagórica de Luciano Tovoli cria um universo hermético onde a realidade fica suspensa. Argento e Tovoli recuperaram especificamente antigos filmes Technicolor e usaram estratégias de iluminação vanguardistas para alcançar efeitos cromáticos saturados e não naturais, explicitamente inspirados no clássico da Disney Branca de Neve, transformando vermelho, amarelo, verde e azul em elementos vivos, pulsantes e ameaçadores.
Neste pesadelo visual, as cores não são mera decoração, mas acabam sendo o verdadeiro “monstro” do filme, uma indicação clara de que o sobrenatural permeia cada canto da arquitetura Art Nouveau da academia. Cada luz de néon e textura de veludo parece esconder uma ameaça além da compreensão humana. Significativamente, esse caminho de excesso visual culmina em um paradoxo no final: quando Suzy finalmente se depara com a antagonista suprema do filme, a poderosa bruxa Helena Markos, ela não é percebida visualmente. Mater Suspiriorum é uma entidade invisível, forçando a heroína a confiar em outros sentidos para atacar um mal que estava escondido bem atrás da deslumbrante beleza da superfície.
The Craft (1996)
Sarah, uma garota com poderes telecinéticos latentes e um passado conturbado, muda-se para Los Angeles e é acolhida por um trio de excluídos de uma escola católica que praticam bruxaria. Com a chegada de Sarah, o círculo delas se completa, e seus poderes tornam-se reais e imensos. Inicialmente, usam a magia para se vingar dos valentões e para autoaperfeiçoamento, mas em The Craft, a líder do grupo, Nancy, torna-se sedenta por poder e começa a abusar da magia negra, transformando o jogo em uma guerra mortal entre amigas.
Este é o filme cult geracional por excelência dos anos 90. Popularizou a estética gótica e a bruxaria Wicca. Por trás do brilho adolescente, é um filme sombrio sobre dinâmicas de poder femininas, bullying e saúde mental. Fairuza Balk, como a psicótica Nancy, entrega uma das performances mais eletrizantes e assustadoras da década.
Eve’s Bayou (1997)
Na Louisiana dos anos 1960, a jovem Eve Batiste descobre as infidelidades do pai — um médico charmoso — e os segredos obscuros de sua família burguesa. Tentando entender o mundo adulto que a machuca, ela recorre à sua tia Mozelle, uma vidente que pratica vodu/hoodoo, e a uma bruxa local, Elzora. Em Eve’s Bayou, o que começa como um desejo infantil de punir o pai se transforma em uma maldição real com consequências trágicas, explorando a tênue linha entre superstição e o poder da vontade.
A estreia de Kasi Lemmons é uma obra-prima do Sul Gótico. Visualmente suntuoso e belamente atuado (Samuel L. Jackson, Jurnee Smollett), trata a magia não como um efeito especial, mas como parte integrante do tecido cultural e espiritual da comunidade afro-americana no Sul. É um filme sobre memória (“a memória é uma seleção de imagens, algumas verdadeiras, outras inventadas”) e as consequências emocionais da bruxaria doméstica.
The Blair Witch Project (1999)
Em outubro de 1994, três estudantes de cinema desaparecem na floresta perto de Burkittsville, Maryland, enquanto filmavam um documentário sobre a lenda local da Bruxa de Blair. Um ano depois, suas filmagens são encontradas. The Blair Witch Project é a crônica de seu desmoronamento: o que começa como um projeto escolar se transforma em um pesadelo de desorientação, ruídos na noite, pilhas misteriosas de pedras e uma presença invisível que os persegue sem nunca se mostrar, levando-os à loucura.
Este filme mudou a história do marketing e do horror, lançando o fenômeno global do Found Footage. Custando muito pouco e vendido como uma “história verdadeira” graças a uma campanha pioneira de marketing viral na internet, aterrorizou o mundo ao apostar no medo primal do desconhecido. A bruxa nunca é vista, mas sua presença está em toda parte. Um exemplo perfeito de como a sugestão pode ser mais poderosa do que qualquer monstro gerado por CGI.
The Lords of Salem (2012)
Heidi, uma DJ de rádio em Salem, Massachusetts (e uma ex-dependente química em recuperação), recebe uma caixa de madeira contendo um disco de vinil de uma banda desconhecida chamada “The Lords”. Quando ela toca o disco, a música hipnótica desencadeia visões bizarras nela e desperta as mulheres da cidade. Em The Lords of Salem, Heidi descobre que é descendente de um coven de bruxas queimadas em 1696, que estão retornando para realizar um ritual para o nascimento do Anticristo através dela, usando a música como um feitiço em massa.
Rob Zombie abandona o splatter caipira para um horror atmosférico, lento e surrealista que presta homenagem a Polanski, Kubrick e Ken Russell. Visualmente barroco e psicodélico, o filme divide o público, mas fascina com sua estética sacrilégia e como mistura a história real de Salem com um pesadelo neon. Sheri Moon Zombie entrega sua performance mais frágil e intensa em um filme que é uma obra maligna de arte visual.
As Bruxas Estão de Volta (2014)
O que Shaun of the Dead alcançou ao redefinir a representação cinematográfica dos zumbis e o que What We Do in the Shadows executou ao trazer uma abordagem cômica e fresca aos vampiros, Witching & Bitching tentou espelhar para a representação das bruxas no cinema, embora não tenha alcançado o mesmo nível de destaque. Ao comparar os dois filmes, é a criação de Edgar Wright que ressoa de forma mais autêntica e captura de maneira mais eficaz a essência de seu tema sobrenatural do que Witching & Bitching, de Alex de la Iglesia. Este filme se desenrola principalmente como uma história de assalto que inesperadamente se desvia para o estranho reino das bruxas canibais, infundido com camadas de humor ridículo e farsesco.
Repleto de performances excepcionais de seu talentoso elenco espanhol, este filme oferece uma mistura inesperada de humor e horror, entregando cenas ricas em gore de arrepiar. A combinação de sagacidade e horror arrepiante mantém o público tanto entretido quanto tenso, desafiando as expectativas típicas do gênero. Embora as bruxas retratadas possam não parecer totalmente sérias à primeira vista, sua presença ameaçadora permanece, sublinhada por suas ações perturbadoras que incluem a possibilidade de amarrá-lo a um espeto e assá-lo vivo. O filme cria uma atmosfera única onde os elementos cômicos não diminuem o horror, garantindo uma experiência envolvente que satisfaz os fãs de ambos os gêneros.
The Witch (2015)
Desde o início, The Witch nos mergulha em um território implacável e inóspito. Somos compelidos a refletir, pois a contemplação é nossa única opção, sobre a firme insistência do patriarca puritano William, interpretado por Ralph Ineson, que propõe resolutamente exilar sua família de sua área estabelecida na “Nova Inglaterra”. Sua carruagem enfrenta dificuldades constantes ao atravessar a paisagem árida, aproximando-se das bordas do Novo Mundo, bem na fronteira de uma floresta densa e inexplorada. É o ano de 1620, e William declara com convicção inabalável: “Nós governaremos esta selva”. Como espectadores, somos lançados nessa jornada incerta, ponderando os desafios que aguardam nessa vasta e selvagem extensão.
“The Witch – A New England Folk Tale”, de Eggers, é um filme aterrorizante e envolvente que captura habilmente o misticismo e o fascínio do desconhecido. Seria, de fato, um grande eufemismo sugerir que ele apenas se assemelha aos julgamentos das bruxas de Salem, dado que esses infames eventos ocorrem quase 70 anos após o período retratado no filme. As implicações ominosas e as consequências imprevisíveis desses julgamentos históricos pairam ameaçadoramente sobre “The Witch”, lançando uma sombra assombrosa ao longo da narrativa. Eggers cria tensão em cada cena com maestria, evitando efeitos especiais convencionais ou gore gratuito, e, em vez disso, emprega uma edição magistral para tecer uma atmosfera de suspense. Essa técnica inteligente resulta em uma teia febrilmente intrincada de desejo e inquietação, onde instintos elementares como luxúria, desafio, anseio e ganância fervilham logo abaixo da superfície da experiência humana, influenciando sutilmente as ações, mas nunca totalmente subjugados ou controlados.
The Love Witch (2016)
A bela e encantadora Elaine, uma jovem bruxa dos dias modernos, muda-se para uma pitoresca cidade da Califórnia após a misteriosa morte de seu ex-marido. Determinada a encontrar o homem perfeito, ela usa feitiços e poções do amor para seduzir uma série de homens. Seus feitiços, no entanto, funcionam tão bem que despertam neles uma adoração tão avassaladora e patética que se torna letal, deixando um rastro de corações partidos e cadáveres em seu caminho.9
O filme de Anna Biller é uma obra única, uma crítica feminista mordaz disfarçada de uma impecável reconstrução estética dos thrillers Technicolor dos anos 1960.11 Essa escolha estilística não é um capricho nostálgico, mas uma arma. Biller imerge o espectador em um mundo visualmente suntuoso e familiar apenas para desmontar suas fundações misóginas por dentro.11 A abordagem prática da diretora — assumindo pessoalmente a escrita, direção, edição, design de produção e figurinos — é, em si, uma declaração política: um ato de controle autoral feminino total em uma indústria dominada por homens.12
The Love Witch subverte brilhantemente a teoria do “olhar masculino”. 11 Embora Elaine se apresente como o objeto supremo do desejo, o filme é filmado inteiramente do seu ponto de vista. Os homens não são protagonistas, mas objetos passivos do seu desejo, figuras fracas e narcisistas que são literalmente destruídas pelo poder das emoções femininas que não conseguem suportar.12 Quando confrontados com o amor avassalador que Elaine exige, eles desmoronam.
A Dark Song (2016)
Despedaçada pelo luto pela perda do seu filho pequeno, Sophia aluga uma casa isolada no campo galês e contrata Joseph Solomon, um ocultista cínico e cansado do mundo. Seu objetivo é realizar um ritual exaustivo e perigoso de magia negra que deve durar meses para contactar seu anjo da guarda. No entanto, ela esconde sua verdadeira e sombria intenção de Solomon: ela busca não conforto, mas vingança contra os assassinos de seu filho.
A Dark Song é uma obra que transcende os limites do gênero de horror, transformando um ritual oculto em uma metáfora poderosa e comovente para o processo de luto. O diretor Liam Gavin usa a complexa e historicamente precisa magia cerimonial Abramelin não para espetáculo, mas para mapear uma jornada psicológica. Cada fase do ritual — isolamento forçado, purificação física, privação extrema e confronto com entidades demoníacas — corresponde perfeitamente às etapas do luto: negação, raiva, barganha e depressão.17
Diferentemente de muitos filmes sobre ocultismo, aqui a magia não é um truque fácil, mas um trabalho exaustivo, metódico e psicologicamente devastador. Essa abordagem realista torna a jornada de Sophia incrivelmente crível, deixando o espectador em constante dúvida: o que está acontecendo é sobrenatural ou resultado de um colapso psicológico induzido por trauma e isolamento? Solomon age menos como um mágico e mais como um terapeuta brutal, forçando Sophia a confrontar seus demônios internos.
Hagazussa (2017)
Hagazussa é um filme austríaco de 2017 de cinema de arte, escrito e dirigido por Lukas Feigelfeld. Este filme é conhecido por ser uma obra marcante e visualmente poderosa que explora temas de bruxaria, isolamento e paranoia. O filme se passa no século XV nos Alpes austríacos. Acompanha a história de Albrun, uma jovem que vive à margem da sociedade, excluída da comunidade devido a rumores sobre sua mãe falecida, que também é considerada uma bruxa. Albrun vive em uma cabana isolada e ganha a vida colhendo ervas na floresta. À medida que o filme avança, a vida de Albrun torna-se cada vez mais sombria e perturbadora. Ela sofre com o isolamento, superstições e visões alucinatórias. Além disso, quando ela sofre abuso e discriminação da população local, sua psique é severamente afetada, levando-a a afundar cada vez mais na loucura.
“Hagazussa” é um filme que enfatiza a atmosfera e uma sensação de opressão em vez de uma narrativa linear. Dirigido por Lukas Feigelfeld, caracteriza-se por longos planos e um uso magistral da fotografia, que captura a beleza perturbadora dos Alpes e ajuda a criar uma sensação de claustrofobia e desconforto emocional crescente. Este filme de arte e ensaio é apreciado por amantes do cinema experimental e do horror psicológico, pois oferece uma visão sombria e envolvente da bruxaria e dos medos que afligem sua personagem principal. É uma obra que não poupa esforços em mostrar a escuridão e a crueldade da natureza humana e, por essa razão, conquistou aclamação entre críticos e cinéfilos que buscam experiências cinematográficas incomuns e intensas.
Suspiria (2018)
Durante um período marcado por ataques terroristas conhecido como o Outono Alemão, uma bailarina americana chamada Susie Bannion faz uma mudança decisiva para Berlim com aspirações de ingressar em uma companhia de balé renomada por sua excelência. Nesse cenário de agitação, uma das alunas dedicadas, Patricia Hingle, desaparece misteriosamente após supostamente se alinhar com o infame grupo terrorista Baader-Meinhof. No entanto, a realidade por trás de seu desaparecimento se revela quando ela confia em seu psicoterapeuta, Dr. Josef Klemperer. Patricia afirma ter descoberto segredos inquietantes sobre a escola de balé — que ela esconde um coven de bruxas liderado por uma figura formidável chamada Helena Markos. Em suas revelações surpreendentes, Patricia assegura que Helena se proclama como a personificação de uma das três antigas e malévolas divindades, ominosamente conhecidas como as Três Mães. Especificamente, acredita-se que Helena representa a formidável e enigmática Mãe dos Suspiros. Essa afirmação lança uma sombra sobre a instituição, adicionando um ar de mística sombria à reputação prestigiosa da escola como um refúgio seguro para a expressão artística em meio ao caos da época.
Um filme experimental elaborado por uma proeminente produtora e dirigido pelo talentoso diretor Luca Guadagnino, esta criação cinematográfica se destaca como uma peça notável que transcende os limites e normas tradicionais da expressão cinematográfica padrão dos tempos contemporâneos. Desde as primeiras cenas, o filme prende o público com sua atmosfera verdadeiramente aterrorizante. À medida que a narrativa se desenrola, os espectadores são atraídos para um enredo misterioso que lentamente revela os segredos obscuros e a sociedade oculta de bruxas que espreita por trás da fachada de uma academia de dança aparentemente comum. A narrativa intricada tece uma tensão envolvente que mantém o público em suspense, revelando camada após camada do mundo estranho e enigmático que jaz por baixo.
A conclusão do filme, que alguns podem perceber como exagerada, é um exemplo quintessencial dos anais da história do cinema. Ela exemplifica uma decisão artística astuta que surpreende e transforma fundamentalmente o estilo narrativo para retratar o horror com transparência inabalável. Apesar de ser relativamente recente, este filme está destinado, com o passar do tempo, a ser plenamente abraçado como um dos filmes essenciais a serem vistos e uma obra-prima venerável.
You Won’t Be Alone (2022)
Em uma aldeia isolada da Macedônia do século XIX, um bebê recém-nascido é sequestrado e transformado em uma bruxa por um espírito antigo desfigurado. Criada em total isolamento e incapaz de falar, a jovem bruxa, Nevena, é uma criatura selvagem e curiosa. Abandonada por sua “mãe” bruxa, ela começa a explorar o mundo humano assumindo as identidades de suas vítimas, vivendo suas vidas em uma jornada poética e brutal para descobrir o que significa ser humano.19
O longa-metragem de estreia de Goran Stolevski é uma obra de beleza comovente, mais próxima de um poema visual de Terrence Malick do que de um filme de terror tradicional. Ele usa a figura da bruxa metamórfica como uma “tabula rasa” existencial. Nevena, nunca tendo conhecido a sociedade, experimenta a vida sem preconceitos. Cada nova forma que ela assume — uma camponesa, um homem, uma criança, até mesmo um cachorro — é uma oportunidade para ela, e para nós, observar a crueldade e a beleza da existência sob uma perspectiva radicalmente diferente.
O estilo contemplativo do filme, com sua cinematografia lírica capturando a paisagem macedônia e uma narração guiada pelos sussurros internos de Nevena, cria uma atmosfera única. O horror está presente, personificado pela figura trágica e aterradora da velha bruxa, Maria, e por explosões súbitas de violência, mas sempre serve a uma meditação mais profunda sobre empatia, sofrimento e a busca desesperada por conexão.
O poder de Nevena torna-se uma ferramenta potente para analisar as dinâmicas de gênero. Quando ela vive no corpo de um homem, experimenta uma liberdade e autonomia que lhe foram negadas como mulher, destacando como a identidade é moldada pelas limitações do corpo que habitamos.20 O filme redefine o conceito de “maldição”. A transformação de Nevena, inicialmente um ato de violência, revela-se um presente paradoxal: a capacidade para uma empatia radical. Ao literalmente viver “na pele” dos outros, ela transcende a solidão e alcança uma compreensão mais profunda da experiência humana do que qualquer outra pessoa.
Insight
Desde cedo, acostumamo-nos a ver filmes centrados em bruxas e bruxaria como histórias assustadoras impregnadas de terror, especificamente criadas por diretores e roteiristas para envolver nossa imaginação e desafiar nossos medos internos. Esses filmes frequentemente servem como veículos que estimulam nosso desejo de entender e confrontar aquilo que mais nos assusta. No entanto, ao mergulharmos mais fundo na rica tapeçaria desses temas, descobrimos uma série de aspectos surpreendentes e inacreditáveis da história humana que muitas vezes passam despercebidos. No cerne de muitos filmes com temática de bruxas está o fenômeno duradouro da bruxaria, uma prática imersa na antiguidade que se estende através dos tempos, suas origens dissolvendo-se nas névoas do tempo. O que frequentemente percebemos como mera fantasia ou ficção nessas narrativas está, na verdade, enraizado em uma tradição histórica que evoluiu e se adaptou, refletindo séculos de crenças culturais, sociais e religiosas que moldaram nossa compreensão do místico e do misterioso.
O Caráter da Bruxa

Uma bruxa é frequentemente retratada como uma mulher que se dedica às artes místicas e mágicas, tipicamente possuindo poderes arcanos e um interesse aguçado em exercer sua influência por meio das práticas da magia negra. No entanto, é essencial compreender que o termo ‘bruxa’ nem sempre carrega uma conotação negativa. No contexto das tradições pagãs, o rótulo ‘bruxa’ identificava simplesmente indivíduos que tinham a capacidade de usar poções, ervas e cristais, juntamente com uma vasta sabedoria esotérica. Tais indivíduos eram valorizados não apenas por sua habilidade mágica, mas por sua conexão com a natureza e a sabedoria ancestral embutida em seus elementos, demonstrando competências na criação de remédios, no lançamento de feitiços e na exploração dos mistérios do universo por meio de um profundo entendimento das ciências místicas. Frequentemente eram vistos como conselheiros sábios e curandeiros, utilizando seus talentos para o benefício de suas comunidades, encarnando uma ponte entre os mundos físico e espiritual.
Uma das crenças mais comuns sobre as bruxas é que elas colaboram com o diabo para disseminar a malevolência entre a humanidade. Essa noção, juntamente com as crenças associadas, foi utilizada ao longo da história como um meio de encontrar e perseguir bodes expiatórios, particularmente aqueles que são mentalmente instáveis, marginalizados pela sociedade, que sofrem de doenças na velhice avançada ou que possuem aparências não convencionais ou pouco atraentes. Esses bodes expiatórios, frequentemente vulneráveis e desamparados, tornam-se alvos de culpa e perseguição, sua individualidade ofuscada por medos irracionais e superstições. Apesar de suas diferenças, esses indivíduos são injustamente agrupados sob o rótulo de bruxaria, enfrentando acusações e punições baseadas não em suas ações, mas nas ansiedades sociais predominantes de sua época. As caças às bruxas, impulsionadas por tais doutrinas, servem como lembretes sombrios de como esses equívocos sobre as bruxas foram historicamente manipulados para justificar atos de discriminação e violência contra os inocentes.
Por séculos, a igreja tem se engajado na prática das caças às bruxas, visando e perseguindo indivíduos que consideram frágeis ou cujas crenças e estilos de vida não se alinham com suas ideologias religiosas. Esses indivíduos eram acusados de conspirar ou se associar com o diabo, Satanás, enfrentando perseguição com base nessas alegações. Esse padrão de comportamento demonstra a tendência histórica da igreja de lançar suspeitas e direcionar hostilidade contra aqueles percebidos como ameaças às suas doutrinas religiosas, frequentemente resultando em consequências severas para os acusados. De modo semelhante, nos tempos contemporâneos, fundamentalistas islâmicos persistem em executar ataques terroristas contra indivíduos que rotulam como “pecadores ocidentais”, movidos pela crença de que tais atos são justificados por sua interpretação ideológica. Esses fundamentalistas veem os estilos de vida e valores do Ocidente como pecaminosos ou moralmente corruptos, levando-os a recorrer à violência como meio de aplicar sua versão da justiça divina. Ambas as situações ilustram um tema recorrente ao longo da história e até os dias atuais: o uso da ideologia para justificar atos de agressão e perseguição contra aqueles considerados como forasteiros ou opositores.
O Sabá das Bruxas
Nas sociedades antigas, particularmente durante a Idade Média, indivíduos conhecidos como bruxas eram frequentemente percebidos como uma ameaça significativa. Essas mulheres eram vistas como perigos não apenas para a segurança e o bem-estar da população local, mas também para a prosperidade e abundância das terras agrícolas das quais as comunidades dependiam fortemente. Naqueles tempos, a bruxaria era sinônimo de perigo, simbolizando uma ameaça formidável que precisava ser enfrentada. O centro desse medo girava em torno do evento conhecido como o sabá das bruxas. Essas reuniões, tipicamente realizadas nas profundezas de densas florestas, serviam como celebrações pagãs dedicadas à veneração de forças malévolas, frequentemente referidas como o maligno. Durante essas assembleias clandestinas, acreditava-se que as bruxas realizavam diversos rituais que lhes permitiam adquirir poderes místicos de natureza sinistra. Tais poderes eram considerados perigosos, representando uma ameaça potencial não apenas para indivíduos, mas para toda a comunidade. Consequentemente, a presença e as atividades das bruxas durante esses festivais eram motivo de grave preocupação, fomentando desconfiança e medo entre os habitantes locais. Por meio da realização desses sabás, acreditava-se que as bruxas adquirissem habilidades extraordinárias que tinham o potencial de causar dano a qualquer um que cruzasse seu caminho.
Vestígios dessas cerimônias têm suas raízes na era do Antigo Egito e se estendem por milhares de anos. Ao longo da história, independentemente da época ou continente, a prática da magia negra parece permanecer amplamente difundida globalmente. Essa influência penetrante está profundamente enraizada em diversas narrativas culturais. Por exemplo, a literatura clássica grega e romana está repleta de histórias que retratam as bruxas como criaturas híbridas grotescas, parte humanas, parte bestiais. Esse arquétipo da bruxa é igualmente evidente nas mitologias e textos religiosos da Mesopotâmia, onde essas figuras surgem no folclore local, assim como no judaísmo antigo e na Bíblia, onde entidades similares são mencionadas. Apesar da passagem do tempo, essas lendas continuam a intrigar, ressaltando a fascinação e o medo duradouros em torno do conceito de bruxaria e seus poderes sobrenaturais percebidos.
Na Itália, histórias e lendas sobre bruxaria estão ricamente entrelaçadas no tecido cultural das Ilhas Eólias, um grupo de ilhas vulcânicas situadas na pitoresca costa da Sicília. Essas ilhas encantadoras há muito tempo servem de cenário para contos sussurrados e medos em torno do sobrenatural. A partir do ano 1200, surgiu um ponto de inflexão quando o patriarca, baseando-se em mais de um século de investigações por teólogos autoproclamados sobre demonologia, iniciou decisivamente as notórias caças às bruxas por meio de um decreto oficial. Isso marcou o início de uma era sombria caracterizada por uma paranoia crescente e fervor religioso contra supostos praticantes do oculto. No ano de 1275, esse medo crescente atingiu um marco sombrio com a primeira execução registrada por queima na fogueira de uma mulher acusada de praticar magia negra. Esse trágico evento ocorreu na cidade de Toulouse, estabelecendo um precedente sombrio para a severa perseguição daqueles suspeitos de bruxaria nos anos que se seguiram.
A Perseguição às Bruxas
Ao longo dos séculos, um número enorme de mulheres, contando-se às centenas de milhares, enfrentou mortes horríveis ao serem queimadas na fogueira por toda a Europa. Este período brutal atingiu seu auge durante os anos 1400, fortemente impulsionado pelo influente texto conhecido como Malleus Maleficarum. Escrito por um frade alemão e sancionado pela Igreja Católica, este manuscrito tornou-se a ferramenta quintessencial para promover a ideia da bruxaria. Serviu como uma poderosa peça de propaganda, capaz de influenciar até mesmo aqueles que anteriormente rejeitavam a noção da existência de bruxas. Ao disseminar medo e suspeita, o Malleus Maleficarum desempenhou um papel crucial na ampla perseguição e extermínio de inúmeras mulheres sob acusações de feitiçaria.
No infame texto conhecido como Malleus Maleficarum, pode-se encontrar diretrizes altamente detalhadas e excepcionalmente práticas, projetadas explicitamente para identificar e capturar indivíduos acusados de bruxaria — uma prática meticulosamente seguida por inquisidores por muitas gerações. Essas diretrizes aprofundam métodos abrangentes que foram rigorosamente observados pelos inquisidores encarregados dessa formidável responsabilidade por centenas de anos. O cerne de sua estratégia era o uso da tortura, um instrumento brutal empregado para extrair à força confissões e admissão de envolvimento em atos sinistros de magia negra, tendo como alvo principal as mulheres. Essas mulheres, frequentemente inocentes, eram implacavelmente perseguidas e interrogadas sob a sombria suspeita de participação em feitiçaria malévola. Aos olhos da população geral, fortemente influenciada pela propaganda disseminada, as bruxas não eram apenas temidas, mas consideradas uma seita legítima e insidiosa, ameaçando o tecido da sociedade. Essa crença generalizada foi alimentada por medos sociais e ignorância, evidenciando o poderoso efeito da desinformação e a perseguição histórica enfrentada por aquelas rotuladas como bruxas.
Um dos principais centros da bruxaria europeia situava-se na Itália, especificamente em Benevento, um lugar reputado por sediar encontros satânicos sob a proteção de uma grande nogueira. Esses encontros, comumente chamados de sabás satânicos, ocorriam com grande regularidade, três vezes por semana. Contudo, as atividades em Benevento não se limitavam a meros rituais realizados na floresta isolada; representavam uma seita mais complexa e organizada de bruxas. As bruxas eram estruturadas com regulamentos meticulosos e uma hierarquia distinta, espelhando as estruturas eclesiásticas de Roma, porém dedicadas a objetivos e motivações antitéticas. Essa organização clandestina desafiava as normas estabelecidas, oferecendo um espelho invertido da devoção religiosa. O clímax sombrio desses tempos na Itália foi marcado pela última execução de uma bruxa na fogueira, ocorrida tão tarde quanto em 1828.
Na obra-prima literária de Bulgakov, “O Mestre e Margarida”, há um unguento particular com a extraordinária capacidade de conceder às bruxas o poder do voo. Essa pomada mística lhes permite viajar pelo céu noturno, guiando-as até o local secreto onde o grande Sabbath está destinado a acontecer. Nesse encontro clandestino, bruxas e outros seres sobrenaturais têm a honrosa oportunidade de participar de um ritual bizarro que inclui beijar o próprio ânus de Satanás. Esse ato ritualístico simboliza sua profunda lealdade e é frequentemente seguido por uma série de festividades hedonistas e frenéticas. Estas incluem orgias sexuais selvagens e desenfreadas, danças enérgicas e hipnóticas, e a arrepiante e trágica oferta de sacrifícios humanos, muitas vezes envolvendo, lamentavelmente, a vida de crianças inocentes. Tais eventos capturam a atmosfera sombria e os temas obscuros que Bulgakov entrelaça em sua narrativa, refletindo as profundezas do folclore sobrenatural e os extremos das tradições góticas.
Explicações Racionais da Bruxaria
O ensaio de um médico holandês, “De praestigiis daemonum”, publicado em 1563, destaca-se por ser o primeiro a propor uma hipótese que liga a bruxaria a doenças mentais de natureza alucinatória. Nesta obra inovadora, o autor sugeriu que as bruxas acusadas, frequentemente mulheres, poderiam na verdade estar sofrendo de graves doenças mentais ou frustrações profundas. Essas mulheres, incompreendidas e estigmatizadas pela sociedade, eram os alvos habituais das acusações de bruxaria. Apesar dessa perspectiva pioneira, numerosos padres e teólogos nos séculos seguintes continuaram a escrever novos ensaios e tratados que reforçavam a crença predominante na bruxaria. Esses escritos contribuíram para a perpetuação da narrativa dominante sobre a bruxaria, ofuscando efetivamente as conexões perspicazes que poderiam ter direcionado a compreensão pública para uma visão mais compassiva desses indivíduos aflitos. Assim, as percepções iniciais oferecidas pelo ensaio de 1563 permaneceram em grande parte desconsideradas, enquanto a sociedade se apegava a medos e equívocos ancestrais.
Numerosas características proeminentes da bruxaria apresentam semelhanças com aspectos encontrados em movimentos espirituais modernos como a Wicca. Essas práticas frequentemente não possuem a terminologia específica associada às religiões maiores estabelecidas e, em vez disso, são direcionadas a entidades espirituais universais, incorporando traços comumente encontrados em tradições pagãs. Ao redor do mundo, os movimentos da Nova Era ganharam ampla popularidade e hoje são abraçados por milhões de adeptos. Essas correntes espirituais enfatizam o crescimento pessoal e a autoexploração, frequentemente por meio de rituais e de uma conexão com a natureza, espelhando o apelo das crenças pagãs históricas. A ênfase na espiritualidade pessoal e a rejeição de estruturas hierárquicas ressoam com aqueles que buscam caminhos espirituais mais personalizados. Esse movimento contemporâneo atrai indivíduos diversos, unidos pela busca de uma compreensão espiritual mais profunda e conexão. À medida que esses movimentos continuam a se expandir, influenciam não apenas vidas individuais, mas também as percepções culturais mais amplas sobre espiritualidade e expressão religiosa, inaugurando uma era que celebra caminhos diversos para o esclarecimento espiritual.
A instância mais recente e surpreendente de caça às bruxas pode ser vista na perseguição sofrida pelo líder espiritual indiano Osho durante a década de 1980. Osho enfrentou assédio devido à comuna New Age que estabeleceu nas terras áridas do Oregon, nos Estados Unidos. Essa comunidade espiritual despertou a ira de fundamentalistas cristãos que o rotularam como líder de uma seita satânica. Apesar da ausência de acusações definitivas, ele foi preso e enfrentou desafios legais que ecoavam preconceitos antigos. Isso resultou em uma vida marcada pelo exílio, na qual ele percorreu o globo em busca de refúgio. A provação o levou por diversas nações, cada uma negando-lhe sucessivamente o santuário, obrigando-o a navegar por um mundo que parecia virar-lhe as costas universalmente.
A caça às bruxas continua a persistir nos tempos contemporâneos? É possível que ela tenha apenas transformado sua designação, e que as bruxas e xamãs modernos não se assemelhem àqueles dos sabás satânicos de outrora. No entanto, a técnica do bode expiatório parece permanecer uma estratégia proeminente utilizada por aqueles que detêm poder significativo, seja nos âmbitos político ou espiritual. Essas autoridades direcionam consistentemente seus dedos condenatórios, auxiliados pelos mass media, para grupos específicos que pretendem vilificar e metaforicamente ‘queimar na fogueira.’ Por meio de histórias sensacionalistas e da amplificação do medo, eles constroem narrativas que exigem indignação pública e perseguição, justificável ou não. Essa encarnação moderna da caça às bruxas reflete mecanismos atemporais de controle e manipulação social, ilustrando a luta contínua da humanidade com o poder e o medo ao longo da história.
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